Observatório Social do Futebol lança o “Mapa das Alianças entre Torcidas Organizadas”

Com um formato interativo e de atualização permanente, o mapa apresenta 52 torcidas organizadas agrupadas nas cinco principais redes de alianças da atualidade: Dedo Pro Alto, Punho Colado, Punho Cruzado, Lado A e Lado B.

De acordo com o relatório “Violências e Convivências no Futebol (Ano 2024)”, a ser lançado em outubro, a maioria dos casos de violência física ligados ao futebol masculino profissional registrados em 2023 foi entre torcedores de times diferentes (47%) e de torcedores contra as forças de segurança (25%). Ainda persistem, em menor medida, as brigas entre torcedores do mesmo time (7%) e as confusões entre torcedores e jogadores (5%).

A predominância dos confrontos entre torcedores de times diferentes está relacionada, em parte, a quatro fatores identificados: o clubismo como princípio ordenador das identidades futebolísticas; os altos índices de violência que ocorrem em dias de clássicos; a vingança como obrigação moral das torcidas atacadas e o complexo sistema de alianças e inimizades que regula as relações entre as torcidas organizadas em todo o país.

Para compreender melhor os conflitos entre torcedores de times diferentes, os pesquisadores Nicolás Cabrera, Raquel Sousa e João Vitor Sudário construíram o Mapa das Alianças entre Torcidas Organizadas (2024). Esse produto visa um formato interativo e de atualização permanente, apresentando, em sua primeira versão, 52 torcidas organizadas agrupadas nas cinco principais redes de alianças entre torcidas organizadas brasileiras: Dedo Pro Alto, Punho Colado, Punho Cruzado, Lado A e Lado B.

A necessidade do mapa se justifica por sua capacidade descritiva e explicativa das relações de amizade e inimizade entre as torcidas organizadas em uma escala nacional. Essas afinidades e hostilidades não são um fenômeno recente, nem restrito a um local específico.

Casos similares são observados em outros países, especialmente no contexto latino-americano, como demonstra a evolução histórica do caso brasileiro, revelando um fenômeno dinâmico. Apesar das particularidades e mudanças, existe um princípio estruturante que ordena essas alianças, entendido, segundo a literatura sócio-antropológica, como a “síndrome de beduíno”:

“O amigo de um amigo é um amigo; o inimigo de um inimigo é um amigo; o amigo de um inimigo é um inimigo; o inimigo de um amigo é um inimigo.”

Entretanto, esse princípio não é inviolável. Existem exemplos de inimizades entre torcidas que pertencem à mesma união, bem como de amizades entre grupos de diferentes alianças ou entre torcedores do mesmo time em conflito. Assim, é importante esclarecer que o mapa não reflete as alianças e inimizades de cada torcida que compõe uma união, mas sim as torcidas que fazem parte de cada bloco pensado como um todo. Além disso, o mapa não apresenta todas as alianças realmente existentes, mas apenas as principais.

Essas alianças surgem, perduram ou terminam por diversos motivos: rivalidades regionais, relações de parentesco, amizades pessoais, auxílios em viagens, afinidade pelas cores, jogadores em comum, brigas históricas, mortes, mudanças na diretoria, entre outros fatores. Elas não explicam apenas as violências das torcidas organizadas, mas também materializam vínculos de parceria, solidariedade ou ação social. Em consequência, acredita-se que o mapa pode ser uma ferramenta de utilidade pública para diversos objetivos.

Acesse o Mapa das Alianças entre Torcidas Organizadas através do link, podendo também visualizar a plataforma em tela cheia. Vale lembrar que os dados apresentados no Mapa serão objeto do Relatório Violências e Convivências no Futebol, com previsão de lançamento em outubro.

A linha de pesquisa “Violência(s) e Convivência(s)” do Observatório Social do Futebol (UERJ) tem como objetivo constituir e consolidar uma rede de trabalho formada por pesquisadores, torcedores e outros atores da sociedade civil interessados em produzir um conhecimento científico comprometido com o debate público sobre o fenômeno das “violências no futebol”. Nesse sentido, é de interesse quantificar, classificar e mapear os casos de violências físicas retratados pelo acervo midiático brasileiro durante o ano de 2023. Para isso, a máxima que fundamenta este projeto é: o que não pode ser medido ou mapeado não pode ser melhorado.

Mais notícias:

Descubra mais sobre Observatório Social do Futebol

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading